segunda-feira, 28 de outubro de 2013

The Boy On The Bus (Post With Text)

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Comecei a fotografar em transportes públicos há muitíssimo pouco tempo; digamos que, no dia em que criei este blogue, há uma ou duas semanas, tirei a minha primeira fotografia: uma coisa muito mal amanhada porque estava ansiosa por ter alguma coisa para pôr aqui. Agora, olhando para trás, essa fotografia parece-me encantadora, talvez mais do que todas as outras, precisamente por ter sido a primeira; mas foi pura sorte; se em vez daquele rapaz, estivesse, naquele momento e naquele lugar, outra pessoa qualquer --só uma no meio das centenas que vejo diariamente, absolutamente desinteressante e, numa palavra, sem graça, pelo menos para este tipo de fotografia que implica que quem está a ser fotografado seja apanhado desprevenido -- então, se em vez dele, estivesse outra pessoa qualquer, talvez eu agora olhasse para a primeira fotografia e tivesse vontade de a apagar.
Já via coisas bonitas em transportes públicos há algum tempo. Dias antes de iniciar o blogue estava sentada num autocarro, a passar o Campo Alegre, já muito frio lá fora, como fica sempre, no Porto, durante o crepúsculo, seja qual for a altura do ano, quando reparo num rapaz sentado na fila do lado oposto ao meu, encostado à janela a tentar lutar contra o sono, e a perder, como acontece quase sempre; a cabeça a tombar para todos os lados, os olhos a abrirem para logo se tornarem a fechar, enfim, uma imagem bonita (o crepúsculo, de resto, é a melhor hora para andar em transportes públicos: o dia, que já vai longo, a escurecer lá fora, as pessoas a regressarem a casa vindas dos seus trabalhos, o próprio trânsito, tudo se funde numa atmosfera muito amiga de pensar na vida); o rapaz vestia umas roupas velhas e gastas, usava boné, não enfiado na cabeça, antes pousado e por isso a dar a ideia de que a cabeça é muito maior do que aquilo que é, na realidade; tinha ar de guna, é assim que lhes chamamos no Porto; e, por algum motivo, talvez justamente por este motivo aliás, o sono e os olhos cerrados davam-lhe uma aura angelical muito doce, parecida àquela que as crianças muito mexidas e que estão sempre a fazer traquinices ficam, assim que adormecem. Essa foi a primeira vez em que me apeteceu, verdadeiramente, fotografar um desconhecido, mas na altura não o fiz, não sei bem explicar porquê... Dias depois, como disse, criei o thewonderexpress. Hoje, ao voltar a casa, sentada no mesmo lugar onde há semanas o tinha visto, ao tal rapaz, pela primeira vez, por sorte, olhando para o lado, reparo nele; outras roupas e já sem o boné, mas era ele, a tal pessoa que me tinha alfinetado o desejo pela fotografia; por curiosidade já de tarde, durante a hora de almoço, descia a rua de Santa Catarina a pé, como quem vai para São Bento, e reparo nuns olhos que, penso, não me eram estranhos; era a rapariga do post 'I Love You', aquela a quem eu, ainda há tão poucos dias, tinha fotografado, perto da Trindade. Olho para o telemóvel, tenho 1% de bateria, abro a câmara e, já sem me preocupar se ele vai ou não reparar em mim, inclino-me para ele, mas, antes quase de que eu tenha tempo para apontar a câmara, o ecrã fica preto, sinal de que se iria desligar em segundos; será que gravou? Não deve ter gravado. Não percebi sequer se tinha, ou não, carregado no botão de fotografar. Já em casa descarreguei as fotografias e lá estava ela: não fui a tempo de não lhe cortar parte da cabeça, mas o que importa é a intenção.


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