Qualquer pessoa que já tenha entrado no metro, na estação da Trindade, sabe o caos que é para mexer um dedo mindinho, pelo menos até à estação seguinte. Vi-os a entrar na carruagem imediatamente anterior à minha; ela parecia triste. Decidi que os queria fotografar.
A ideia que eu tinha em relação às fotografias a casais era a de que, em principio, porque ambos estariam concentrados um no outro, seria mais fácil passar despercebida; não é bem assim. Elas, especialmente, topam a mais inocente aproximação a léguas de distância. E a minha não era assim tão inocente.
Sentei-me perto deles porque, entretanto, tínhamos passado a estação da Lapa e o metro, segundos antes apinhado, ficou quase vazio. Para me sentar nesse tal lugar tive de passar por um corredor com a largura normal de um corredor de qualquer transporte público: pequeno e apertado. Tive cuidado e se lhe toquei foi por milímetros, com a carteira, mas nem cheguei a perceber; sei que chocámos porque a ouvi dizer, não para ele, mas para o ar, 'ai o caralho'; que feitiozinho maravilhoso, pensei, e sentei-me. Na estação da Casa da Música o metro voltou a encher e sobrava apenas um lugar livre, precisamente à minha frente. Ela sentou-se e ele ficou de pé, colado a ela, a afagar-lhe o cabelo molhado e escuro, cheio de ternura, com aquele toque cuidado e doce que só os amantes conseguem usar. Não é que tivesse ficado ofendida com o comentário que ela havia feito, segundos antes quando eu tentava sentar-me; mas pensei que, mesmo se esse tivesse sido o caso, o olhar inseguro e puro com que ela o encarava, de baixo para cima (porque ele estava de pé), perdoava tudo. Às vezes acontece-me chegar a este ponto e desistir da fotografia; a imagem em frente aos meus olhos é tão sublime que me parece que a lente e eu estamos ali a mais (e estamos); que aquele momento só pertence a quem lá está. Chovia a cântaros, como se o Outono quisesse recuperar o tempo perdido... Ela baixou a cabeça e ficou assim algum tempo, a olhar lá para fora; não percebi se chorava. Ele abraçava-a com a palma da mão. Que se lixe, ela também nunca vai saber. Fotografei-os e saí.
As fotografias deste post estão mais abaixo, num outro entitulado: I Love You.
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